Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa.

Nunca gostei de finais. Na verdade, nunca fui boa com eles. Agora, olhe só pra gente, Dex. O que aconteceu? Acabou? É isso? Sabe menino, eu jurei a mim mesma que tudo ficaria bem. E você prometeu que seria assim. Mas acho que não somos bons o suficiente para cumprirmos com nossa palavra.
E aí, Dex. Como está a vida? Você não apareceu mais desde o dia na cafeteria. Eu sei, eu sei, as coisas ficaram um pouco complicadas para nós. Mas olha, menino, escuta bem o que eu vou te dizer, anota pra tu nunca mais esquecer. Eu nunca tive tanto medo de perder alguém como eu tive, e ainda tenho, de lhe perder (se ainda houver alguma maneira a mais de isso acontecer). Eu já lhe perdi de todas as maneiras possíveis. Nunca pensei que as coisas chegariam a esse ponto para nós, mas elas só…acontecem. E agora, você está com ela. Juntos. Namorando. E eu? Bem, eu poderia desejar a vocês toda a felicidade do mundo. Mas eu não consigo. É assim que acontece, Dex. Você não sabe o quanto dói vê-los juntos, você não imagina, o quanto eu desejo, a todo momento, estar no lugar dela. Meu lugar sempre foi ao seu lado. Por que não é mais, Dexter? O que aconteceu com a gente? Será que era mesmo pra ser assim? Você está feliz com ela. Idiota! Só entenda uma coisa, menino, eu quero que você seja feliz sempre. Seja lá com quem for. Não que eu ache que você seria mais feliz comigo, mas acho que funcionaríamos tão bem juntos. É o que todos dizem. Mas você está ela. Foi assim que aconteceu.
Pode parecer egoísmo, mas é que eu ainda não aprendi a te perder, Dexter. Eu nunca consegui arrancar você aqui de dentro. É uma droga Senhor saia-do-meu-coração. É uma droga a maneira como você está presente em tudo, meu amor. Tudo que acontece comigo, eu só penso em poder chegar em casa e lhe contar correndo. Mas a gente mal se olha nos olhos. Você quase não fala comigo. Que droga, Dexter! Por que? Eu continuo insistindo. Por que logo com a gente? Mas faz assim, não volta não. Fica aí aonde ela te colocou. Fica com ela. Não se preocupa comigo, como você sempre faz. Eu vou fingir que vou ficar bem e que não me importo. De uns tempos pra cá me tornei uma chata, nem eu tenho me aguentado! Minhas oscilações de humor aumentaram muito, estão cada vez mais frequentes. E Dex, isso tudo começou quando você começou a sair de fininho. Mas não estou lhe culpando. Não mesmo! Eu sou complicada, você sempre diz isso. Ela não é, não é mesmo? Ela é linda, fina, descomplicada, ela deve ser perfeita. Não há como competir, não é mesmo? Eu não posso competir com ela, é impossível. Então, presta bem a atenção nessa parte, por favor. Não me faça repetir, em hipótese alguma, porque dói, dói muito. Eu estou desistindo de você. É isso mesmo. Por hora, estou tirando meu time de campo. Vai lá, menino. Vai ser feliz. Mas por favor, não exija de mim que eu goste dela, você sabe. No fundo, eu ainda continuarei odiando vocês dois, mas eu vou respeitar. Desculpa por tudo, meu amor. Eu ando fingindo que tudo está bem, você percebeu? Eu não quero mais que você perceba o quanto está machucando. Eu simplesmente engoli em seco e decidir seguir em frente. Eu decidi que eu não quero mais caber no seu abraço dessa forma tão perfeita. Dessa forma tão mágica, querendo ficar pra sempre. Que eu não quero mais ir com seu cheiro pra casa e ficar sentido-o o dia todo. Eu só não quero mais. Eu só não posso mais, Dexter. Eu não consigo mais ficar perto de você e não pensar em nós. E você provoca! Você insiste. É uma espécie de prazer que você tem, não é mesmo? Só pode ser isso. Não tem explicação, meu amor. Ah, e outra coisa, eu preciso parar de te chamar assim. Que costume besta. “Meu amor, meu amor!” Preciso colocar nessa minha cabeça que acabou. Você não é mais só meu, acho que nem nunca foi. Tu prometeu que nada entre nós mudaria. Eu até cheguei a acreditar, mas passou. Vai acontecer, Dex. Já começou a acontecer e, com o tempo, ela vai estar exigindo que isso aconteça e então, não passaremos de meros desconhecidos um para o outro.
E tem mais uma coisa que me irrita, Dex. A maneira como eu me sinto segura ao seu lado, menino. No seu abraço. E sabe aquele carinho que você faz em meu rosto? Eu poderia passar todas as noites da minha vida sentindo sua mão sobre minha pele. Você sabe o quanto eu adoro seus carinhos, o quanto eu adoro você. Tu sabes, guri. Desculpe-me pela forma como tudo aconteceu. Foi inesperado até para mim, você sabe. Dex, eu nunca imaginei que te perderia dessa forma, tão repentina. Mas eu estou aprendendo a me virar. Vai lá. A felicidade tá batendo na sua porta, deixe-a entrar, meu amor. Corre. Anda. Vai ser feliz. Com ela, sem mim.
Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar. Nem um pouco, nem mesmo por um segundo, nem mesmo só por te odiar.
Ao vê-lo, o suor em minhas mãos já aumentou instantaneamente. Não que isso fosse algo incomum, mas, naquela vez, era diferente. As mãos suavam de surpresa. Ou talvez fosse a paixão, a admiração pela pessoa tão despertadora dos meus sentidos que estava na minha frente. A barba por fazer, o cabelo ruivo, o queixo másculo que contrastava com o nariz afilado… Não sei qual destes elementos me deixava mais boquiaberta. Talvez não fosse nenhum deles; talvez fosse o modo como ele se mexia, ou a maneira como permanecia em pé à procura de alguém. Talvez fosse simplesmente ele. Não importava que ele tivesse uma cerveja na mão e um presente (sem embrulho) na outra. Talvez isso o deixasse ainda mais atraente. Não importava que ele usasse a camisa com dois botões abertos e os tênis desamarrados. Também não importava a mancha (de café, provavelmente) na sua calça, ou o amarrotado do seu casaco. Tudo bem que ele tivesse chegado com uma hora e meia de atraso. Eu estava feliz apenas pelo fato de ele estar ali. Imersa nos meus pensamentos, relevando as pessoas que comiam, bebiam e conversavam ao meu redor, eu me dei conta de que minhas mãos continuavam a suar. E aí ele olhou para mim. E sorriu. Primeiro com os olhos, depois com a boca. E veio na minha direção. Sorriu mais uma vez antes de começar a falar:
– Desculpe pelo atraso.
– Não tem problema. Se não atrasasse, não seria você.
Ele olhou para baixo, tentou alinhar o cabelo e perguntou:
– Você ainda esperava que eu viesse?
– Eu sempre espero.
– Ainda bem que eu não te decepcionei.
Estava tão imersa na profundidade dos seus olhos castanhos, que me assustei quando fui chamada.
– Já volto.
Demorei a voltar. Só tive a oportunidade de ficar frente a frente com ele duas horas depois.
– Você demorou.
Assenti. Não era de bom tom tê-lo deixado esperando por tanto tempo.
– Desculpe. Eu te procurei, mas não consegui…
– Me achar?
– Sim. Mas procurei o tempo todo.
– Eu sei. Estive te observando… O tempo todo.
Fomos interrompidos pelo último grupo a deixar o apartamento. Restamos só nós dois.
– Quer dizer que você me observou?
– Acompanhei todos os seus passos. Te vi agradecendo a todos…
– Só ainda não agradeci a você.
– Agradecer pelo quê? Nem te dei meu presente, ainda.
Notei que ele continuava com o presente desembrulhado nas mãos. Notei também que não fazia ideia do que era. Ele me entregou. Abri a sacola. Era um CD. Claro que era.
– Pra compensar todos aqueles que eu te pedi emprestado.
– Não precisava compensar nada.
– Na verdade, foi pra você parar de pedir o meu emprestado.
Ele riu timidamente.
– Achei que você não se importasse.
– Não me importo, mesmo. É só que eu não podia me lembrar de você ouvindo as canções, se você estava com ele.
– Desculpe.
– Mas eu me lembrava de você, de qualquer forma.
Ele pegou o CD das minhas mãos e o colocou no player. Direto na sétima canção.
– A sua preferida.
Meu coração disparou. Tive a clara impressão de que ele ouviu. Antes da música começar, ele sussurrou novamente ao meu ouvido:
– É oficial. Agora eu só aceito a condição de ter você só pra mim.
Acomodei o rosto nos seus ombros. Enxuguei mãos e olhos (emocionados) nas suas costas e permaneci encolhida no seu abraço até a música terminar. Olhei nos seus olhos e respondi:
– Condição aceita.
Ele sorriu. E enrubesceu.
– Me dá um minuto? Vou tirar esse salto, trocar de roupa.
– Vá. Mas não demore, dessa vez.
– Um minuto. Vou só ao armário e…
– Abre os teus armários, eu estou a te esperar.
Deixei a troca de roupa pra lá. Os armários foram abertos. Mas essa já era outra canção.
A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato — pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente — você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.
Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas — mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.
Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?
Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte — quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo — o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão —, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.
— (Antônio Prata - O Salto)
- Anda, fala que você sentiu minha falta.
- Dex.
- Fala! Eu sei que você sentiu. Saudades, não é mesmo? Anda! Fala que você quer me ter ao seu lado pra sempre, por todos os dias da sua vida. Pode falar.
- É verdade.
- Como seu amigo.
- Como meu, Dexter. - Pensei, engoli em seco e saí.
Eu sou daquelas pessoas inseguras que volta pra ver se fechou a torneira, se a porta está trancada, se o fogão está desligado. Eu sempre fui assim, sempre precisei reafirmar minhas certezas - então não me culpe se eu ficar perguntando se você ainda gosta de mim umas dez vezes ao dia. Aceite-me como sou, que eu te aceito como tu és.
—
Caio Augusto Leite (via
27-06)
Eu não estou perguntando se você quer que eu fique. Estou dizendo que vou ficar e pronto. Certo, não precisa. Eu sei, você não precisa de nada e de ninguém, além de ficar sozinha. Vamos então encarar a coisa desta forma: a casa precisa de mim. Logo o chão estará coberto de lenços de papel, haverá sobras de chá de cidreira espalhadas por todo apartamento e o controle remoto da sua televisão vai estar lambuzado de Nutella, especialmente a tecla que libera a dublagem de O Diário de Bridget Jones. Não vou deixar você fazer isso, nem transformar seu lar num cativeiro e tampouco você assistir essa lenga-lenga pela milésima vez, pela milésima vez por causa de um idiota, pela milésima em mau português. Não esquenta, eu vim preparado, não vou precisar ir até em casa arrumar minhas coisas. Já está tudo comigo nesta mochila que eu organizei quando você me disse que estava saindo com aquele cretino. Sim, sim, eu já sabia da fama, apenas não quis cortar seu barato, você estava tão animadinha e minha mãe me ensinou aos gritos que a gente não deve dar vereditos prematuros em relação aos outros. Vai que eu estava errado? Acontece que eu não estava, e seu tivesse te avisado eu teria dito “eu avisei” quando você me ligou toda chorosa informando do auê. Minha tarefa é passar o fim de semana vigiando seu telefone, sua internet, selecionando quem você vai atender, com quem você vai se comunicar. Existem amigos com quem se faz besteira, e amigos que evitam besteiras, sou mais dessa segunda turma. Enquanto eu lavo sua louça, vê se esfrega um xampu nessa cabeça e vem aqui me contar isso direito. Vou fazer um café, a noite, esta em especial, é uma criança gasguita querendo mamar onde só sai pedra. O que eu não entendo, criatura, é como você continua estacionando seu coração em local proibido. Você já não foi multada que chega? Onde mais precisa doer pra você levar jeito? Uma garota tão bonita e gente boa. Se eu não fosse seu melhor amigo, se eu não fosse pateticamente louco de amor por aquela uma, se eu fosse outra pessoa, sei lá, um cara num bar qualquer ou no McDonald’s, eu ia deixar você mexer nas minhas batatinhas. Só estou dizendo que você desperta minha atenção, justamente pelo que você mais se desdenha, como seus ombros franzinos de carregar o continente inteiro nas costas ajudando todo mundo, e seu queixinho geneticamente meio torto, que dá a entender que você está sempre invocada da vida, seu jeito tímido de andar, as mãos no bolso do jeans apertado, toda erradinha, como se tivesse sempre alguém apontando e rindo de você. Você sabe, se eu estou aqui, é porque sou seu fã, porque você vale a pena, porque eu te gosto, e enquanto você tenta fazer esses seus lances rolarem com esses babacas, eu sinto sua falta, de conversar contigo, de ganhar aquele seu “oi” reto, com cara de sono e os olhos líquidos, na primeira aula de laboratório da manhã. Eu sei, eu sei, parece que estou tirando vantagem da sua fragilidade temporal para flertar contigo, porque eu sou um rapaz, e você uma garota e blá-blá-blá. Não é isso, baixa a guarda, está tudo bem, quando você vomitou no meu colo naquela viagem para São Paulo das Missões deu pra ver de cara que você não era pra mim. Lembra depois, nosso fiasco na enfermaria? Você toda grogue e quase tendo orgasmos por efeito do Tramal e eu do lado de fora, sôfrego como um pai de estreante. Eram só umas pedras no rim. Isso, adoro te ver assim, fico todo orgulhoso de fazer você rir, foi pra isso que eu vim. Eu não sei o que dá na cabeça de um sujeito desses te fazer triste assim. Terminando de enxaguar esses pratos a gente vai até o sofá dar um jeito nessa dor, talvez eu tire algum som do James Taylor ou escove seus cabelos ou faça uma massagem profissional nos seus pés, vamos tirar esse joanete da sua alma. Se nada funcionar, a gente cata uma navalha e faz uns cortes sequenciais no seu braço pra liberar endorfina e trapacear a dor, como fez o dr. House naquele episódio, lembra? Não foi contigo que eu vi? Claro que foi, você deve ter embarcado no sono, como sempre. Como pode? É só te aconchegar de conchinha, contar até dez e pronto: você dormiu. E eu fico me sentindo o cara-todo-poderoso que está lá pra te proteger. Sei que você deve achar que nunca mais conseguirá transar na vida, que ninguém nunca pedirá pra ser seu marido e aquela coisa de felicidade está cada vez mais longe, ou que todas as estrelas da sorte daqui a pouco cairão na sua testa. Mas pelo amor dos céus, é só um relacionamento falido, mais um, grande áfrica. Olha o lado bom, chora hoje, deixa seus olhos líquidos escorrerem toda essa maquiagem fúnebre, desenha com rímel preto um novo dia na minha camiseta. Amanhã, de rosto novo, a gente pinta uma carinha feliz e circense, e eu te levo de carro pra ver o mar. Ninguém vai perceber seu riso postiço, o mundo inteiro vai estar ocupado sorrindo com você. Confia em mim, às vezes quem está de fora enxerga melhor. E daqui vejo seu sorriso, sei bem do que ele é capaz de fazer.
— (Gabito Nunes)
Não sou forte o tempo inteiro e não gosto de admitir isso, então não espalha. Eu sou fraca às vezes. Muitas vezes. Sou frágil e estou frágil agora.